CINE CAMALEÃO: BOCA DO LIXO

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 SINOPSE
Mel Lisboa interpreta a cantora Wanda Scarlatti. Ela decide financiar um filme com a condição de protagonizar uma cena de sexo explícito e chama o cineasta Tony Reis (papel de Roberto Leite) para tocar a produção. Frustrado por não poder bancar trabalhos de arte e depender da pornochanchada, ele enxerga a chance de tirar proveito da situação.
O espetáculo traça um interessante painel dos anos 70 e entretém a platéia. Recheada de ironia, dramaturgia traz referências à vida cultural e ao cenário político da época e costura com metalinguagem, representada por projeções do filme que desenrola a trama.

​SOBRE A PEÇA

​O espetáculo é uma experiência cine-teatral. Para a montagem, a companhia filmou o “Faroeste na Rua Apa”, com próprio elenco da peça, que retrata o crime do Castelinho da Rua Apa, um dos maiores mistérios de São Paulo. Toda a estética do filme foi feita baseada na Boca do Lixo, período em que é contada a história. E assim, a Cia mergulha na região do centro da cidade que já foi considerado a Bollywood Brasileira entre os anos de 60 e 80 - reduto que deu ao país filmes com O Pagador de Promessas, A Margem, os Faroestes Feijoada e as Pornochanchadas. O Público paga quanto puder para assistir ao espetáculo.

A peça se passa na década de 1978, momento de crise da produção cinematográfica brasileira. Com 14 anos de existência, 12 anos dedicados a estudos sobre o Centro da Cidade, temática de suas peças. E a Boca do Lixo (rua Triunfo) e o misterioso tiroteio no Castelinho da rua Apa (até hoje sem respostas) são o ponto de partida de Cine Camaleão.

Mel Lisboa empresta sua sensualidade a esta produção que fala do cinema marginal paulista. Ela vive Wanda Scarlatti, uma cantora POP em 1978 – uma espécie de Cher brasileira –, ambiciosa, deseja ser a primeira mulher a fazer cena de sexo explicito no Brasil, e contrata a decadente Cine Camaleão para a parceria. Roberto Leite vive Tony Reis, um dos grandes cineastas de Faroeste Feijoada da Boca do Lixo. Beto Magnani vive seu irmão, Max Reis, um ator com formação no teatro-circo, conceituado no cinema e TV que enfrenta o vício do álcool e das drogas. Juliana Fagundes é Vera Selma, esposa de Tony Reis, uma atriz que deseja ter seu sucesso de volta. Lorenna Mesquita vive uma bela garota indígena, Indianara, que chega à Boca e sonha ser atriz de cinema e TV; Thais Aguiar vive Penélope, atriz e delegada americana do Dops, que investiga o possível envolvimento da Cine Camaleão com um terrorista que fora seu amante.

O dramaturgo paraense radicado na Capital há mais de 22 anos Paulo Faria – Premio Nacional de Dramaturgia por Mulher Macaco Plínio Marcos/2000, Premio CocaCola por Um Certo Faroeste Caboclo, 1999, Premio Projeto Visual CPT por Trilogia Degenerada, indicado ao Shell em 2009 pelo texto de Meio Dia do Fim, e está indicados a 3 prêmios Shell nesta edição: texto, cenário e figurino – assina a dramaturgia e direção da peça.

Antes de ensaiar o espetáculo, o elenco filmou O Faroeste da Rua APA, e em cena da peça, conta-se a história da Produtora de Entretimentos Cinematográficos Cine Camaleão que acabara de filmar seu longa O Faroeste da Rua Apa, ambientado em 1978, ano da produção do filme. Durante a historia em cena os atores assistem os 20 minutos finais daquela produção, esperando a tal cena de sexo.

Para produzir o filme e a peça o Pessoal do Faroeste foi a Boca do Lixo e trouxe José Roberto Índio, um dos grandes artistas da Boca premiado em efeitos especiais e E. F. KoKotch, também premiado diretor de arte da Boca, ambos ficaram marcados por um tipo comum na Boca, o tipo indígena que também fazia efeitos especiais para os longas, personagem inspirador de Indianara de Cine Camaleão.
​Boca do Lixo é a designação pejorativa para a região central da capital paulista localizada entre os bairros Luz e Bom Retiro. Tudo começou na década de 1930, quando as salas de cinema, distribuidoras, fábricas e lojas de equipamentos começaram a florescer na região. Produtoras de cinema como a Paramount, a Fox e a MGM se instalaram por lá. Décadas mais tarde, a área se tornou o maior reduto do cinema do país.
Teria sido Oswaldo Massaini, com sua Cinedistri, o primeiro a instalar-se, em 1949. Nos anos 1960, conseguiu seu grande feito, a nossa única Palma de Ouro em Cannes, com O Pagador de Promessas. A partir daí, as produções começaram a florescer. Na década de 1970, a produção intensificou o teor sexual e entrou no período que ficou conhecido como a fase da pornochanchada, ainda que de pornográfico nada tivesse. Era um cinema popular que falava diretamente ao público brasileiro.
O próprio público que frequentava a região compunha o cenário dessa produção: vigaristas, bancários, homossexuais, policiais, jornalistas, prostitutas, traficantes, malandros... Este ambiente também atraiu a comunidade artística. A convivência era pacífica.
Nos anos 1980, houve o boom dos filmes de sexo explícito e alguns resquícios de bons filmes. Aos poucos, as produtoras começaram a fechar e sair do centro. E assim teve início o abandono da região, que culminou na Cracolândia dos anos 90 aos dias de hoje, transformando-se em uma das regiões mais degradadas da cidade. Hoje, a região abriga prostituição, consumo de drogas e comércio de eletrônicos. Ao lado de lugares sofisticados como a Sala São Paulo.

 

FICHA TÉCNICA


 

Direção Geral e Dramaturgia:
Paulo Faria
 
Elenco:
Mel Lisboa, Beto Magnani, Roberto Leite, Juliana Fagundes, Thais Aguiar e Lorenna Mesquita.
 
Direção de arte:
Paulo Faria
 
Cenário e Figurino:
F. E. Kokocht e Paulo Faria
Visagismo:
Salão C. Kamura
Maquiadores:
Márcio Granado e Natália Alves
 
Iluminação:
Dário José, Paulo Faria e Tomate Saraiva
 
Direção de Vídeo:
Dário José e Sérgio “Pizza” Gambier
 
Canção original:
Eliseu Paranhos
 
Trilha:
Felipe Roseno (filme) e Pessoal do Faroeste (jingle, vinhetas, paisagens sonoros – criadas com 
elenco em sala de ensaio sob regência de Denise Venturini)
 
Consultoria som\áudio:
Paulo Gianini
 
Preparação Vocal:
Denise Venturini
 
Preparação Percussiva:
Jorge Peña
 
Preparação Física:
Érika Moura
 
Preparação de Sapateado e coreografia de sapateado:
Bruno Vieira
 
Produção:
Mari Aguilar e Heitor Vallim

 

Fotos da peça:
Lenise Pinheiro
 
Fotos do filme:
Dário José e Sergio Pizza
 
Consultoria Histórica:
Rose Silveira
 
Consultoria Astrológica:
Claudia Lisboa
 
Edital de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo 2011
Projeto Cine Camaleão, A Boca do Lixo. Teve 3 indicações ao premio Shell, 3 indicações ao Premio CPT e indicação ao prêmio Governador do Estado de SP.
CRÍTICA

"Espetáculo contagia com bom humor e elenco homogêneo"

Luiz Fernando Ramos
Crítico da Folha

É teatro ou cinema? A pergunta é o bordão irônico de "Cine Camaleão - A Boca do Lixo", do grupo Pessoal do Faroeste, que combina cenas ao vivo e filmadas para homenagear cineastas paulistanos dos anos 1960. O espetáculo contagia pelo bom humor.
Com a montagem, o diretor da Faroeste e dramaturgo Paulo Faria prossegue no projeto de resgatar histórias de São Paulo a partir de marcas do passado. Ocupa espaço na rua do Triunfo, em Santa Ifigênia, onde conviveram produtores do cinema marginal e de pornochanchadas.
Na trama rocambolesca de Faria, um diretor que ficara famoso com o estilo "faroeste feijoada", mas sobrevivia com a pornografia branda, aceita o convite de uma cantora pop para fazer um filme de sexo explícito.

Em subtrama, uma delegada do vizinho Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que é atriz nas horas vagas, investiga o envolvimento da mulher do cineasta com um terrorista procurado.

As narrativas vão se cruzando com idas e vindas, em meio a uma cenografia repleta de ícones do brega.

Nas cenas ao vivo, o registro é de chanchada, mas com toque de distanciamento épico e cadência de musical, ainda que se cante pouco.

Esse tom cômico contrasta com o realismo do filme em paralelo, em que se desenvolve o roteiro de um faroeste urbano, baseado em crime de fato ocorrido na cidade. Aos poucos, os dois planos, mesmo em registros contrastados, se mesclam e cativam.

A surpresa é o desempenho de Mel Lisboa como Vanda Scarlatti, a cantora pop que quer explicitar suas partes íntimas nas telas. Segura e convincente, enfrenta com garra uma personagem quase alegórica e lhe dá contornos poéticos.

Roberto Leite (o cineasta Tony Reis) também se destaca em um elenco homogêneo, que se mantém entre a fé cênica e o deboche.

Em seu 15º ano de vida, a companhia Pessoal do Faroeste acerta a mão, concilia pesquisa séria e boa diversão e dá luz às trevas dos viciados em crack que perambulam em seu entorno.

 

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