Cia. Pessoal do Faroeste traçou uma  ‘cartografia afetiva do quadrilátero do pecado’

Em 2016 o projeto marcou as comemorações dos 18 anos de existência do Pessoal do Faroeste. E agora, no segundo semestre de 2020, vira um mini doc em parceria com o SESC Bom Retiro

 

Em parceria com 7 coletivos residentes entre 2015 e 2016, no Ateliê Amarelinho do Faroeste - Agrupamento Andar 7, Zona, Substancial, Quadrilha, Caixa de Imagens, A-Seita e Os crespos, se fez um mapeamento cartográfico afetivo de todos os moradores do entorno da sede da companhia, conhecido como “quadrilátero do pecado”, entre as avenidas Mauá, Ipiranga, São João e Duque de Caxias: A Boca do Lixo.

 

Este projeto marcou os 18 anos da Cia Pessoal do Faroeste, e identificou quem era a população moradora da região. Foi, também, um momento de reflexão da Cia, depois de uma imersão de 15 anos em duas Trilogias sobre o século 20 no território. A Cartografia foi um momento de se pensar, trocar, conversar com o entorno, para entender o que ele tem a sugerir, a provocar sobre um novo olhar, uma nova poética, uma nova dramaturgia.  Cada coletivo percorreu quatro ruas, e cada um criou uma intervenção/performance para as abordagens e mapeamento.

O Pessoal do Faroeste além de possuir a sua Sede na Rua do Triunfo, possui ao lado, na esquina da Rua General Osório, o Ateliê Amarelinho, local onde abrigou o ateliê da artista Maria Bonomi. Durante a Cartografia, se teve, ali, um projeto de residência artística, com dez coletivos, em diálogo permanente com o entorno. Foram esses os coletivos residentes que se dividiu entre as ruas, e foram a campo performativamente.

 

Levantamento para a criação

O morador e moradora do entorno foi convidado de porta em porta para assistir à peça Luz Negra - em cartaz na época. Num ambiente de estudo, reflexão, trocas, formação de plateia e discussão de políticas públicas. Todas as atividades acontecem na Sede Luz do Faroeste, na Rua do Triunfo.

 

Cadeira na porta - memória

Ô de casa! Dê licença! Através de uma visita para convidar o vizinho a assistir ao musical “Luz Negra” se estabelecerá o primeiro contato. Antes, no primeiro mês do cronograma, foram levantadas todas as perguntas para a construção da cartografia e o roteiro dos pontos onde atuaram os cartógrafos e cartógrafas, pra que pudessem registrar da melhor forma a memória e cultura da vizinhança. No primeiro encontro entre o cartógrafo e o território também se marcou o dia em que o vizinho iria assistir à peça, para que o seu cartógrafo pudesse encontrar no seu endereço e levá-lo até o teatro num passeio de reconhecimento da sua casa até o teatro. E ao final da peça a prosa iniciada no primeiro encontro, com as devolutivas do nosso vizinho sobre o espetáculo – por vezes esse encontro aconteceu num debate com o público. Durante esse mesmo período, a cada mês, houve uma palestra sobre o universo do estudo do negro, do cinema e da região. A programação do cine clube também refletiu todas as questões que permearam a cartografia. Toda essa parte será programada.

Pontos levantados:

1. Identidade e história da região: a região compreendida como Luz tem uma história rica e diversa, permeada por momentos mais oficiais e mais obscuros, por doses maiores ou menores de atenção do governo e da opinião pública.


2- Memória (documentação e registro): um território de reflexão teórico e prático acerca da memória do bairro da Luz e seus habitantes, utilizando da memória para tentar a partir dessa “geografia humana, uma cartografia afetiva”, traçar um estudo sobre o local, sua história e suas transformações no presente.
 

3- Políticas públicas: discutir políticas públicas destinadas às artes, bem como a sua real efetivação e legados para a cidade quando bem elaborada e realizada. Nesse sentido, se discutiu, desde possíveis propostas de políticas públicas até exemplos de políticas que deram certas enquanto fomentadora de uma nova produção que não se pauta mais pelo viés do mercado.


4- Direito à cidade: por meio de tema proposto, criar um lugar de reflexão que possibilite a abertura do pensamento e da ação na direção de possibilidades que mostrem novos horizontes e caminhos para sociedade urbana e a realidade que nasce a nossa volta.
 

5- Periferia central ou centro periférico: diferentemente de outras regiões centrais da cidade, os bairros da Luz e Santa Ifigênia têm uma dupla face: ora são enxergados como centro, ora como periferia, numa mescla de referências geográficas e simbólicas.
 

6- Gestão colaborativa horizontal: estratégias e ferramentas de gestão que se apoiam no formato colaborativo onde escolhas e tomadas de decisão são feitas de forma horizontal e democrática.
 

7- Cidadania, arte, cidade: a proposta aqui é discutir a relação entre ambas, e o que esta relação implica na construção ou transformação do tecido social, bem como na circulação e produção de bens simbólicos.

 

8- “Cracolândia”: Nas últimas décadas, a região da Luz e cercanias tem aparecido na imprensa por conta de questões relacionadas à violência, mas algumas ambiguidades teimam em surgir.


9- Migração: poucas regiões em São Paulo exibem de modo tão exuberante a influência de múltiplas correntes migratórias como o bairro do Bom Retiro e seus arredores. Judeus, coreanos, gregos, nigerianos, haitianos, árabes, bolivianos, entre outras – povos que redefinem, com sua cultura e crenças, o espaço ao qual aportam ao mesmo tempo em que sofrem processos de transformação em suas próprias culturas.

 

 

Marco Zero

Dia 26.11.2015


Saída dos dois primeiros coletivos que fizeram a cartografia nos meses de novembro e dezembro

(no fim de janeiro os três coletivos que restam, terminam na diagonal oposta no mapa, na esquina da São João com a Ipiranga).


Saída Sede Luz do Faroeste, esquina da Rua do Triunfo com a General Osório

Aqui, temos o caminho de dois coletivos:


 

Coletivos/Movimentos/Cronograma 2015

1. Agrupamento Andar7

 

Ruas selecionadas: Rua do Triunfo, Rua General Couto Magalhães, Rua dos Protestantes e Rua dos Timbiras

Cartografia para um memorial do afeto. Como proposta de cartografia e mapeamento o Agrupamento Andar7 pretende realizar ações que aproximem os moradores e entrelacem suas memórias através da construção de um memorial/instalação, o ponto de partida é o trabalho já iniciado com o projeto as #asclaudias, no qual foram ministradas oficinas voltadas a mulheres no bairro da Luz, utilizando a mitologia da boneca Abayomi, boneca negra de origem africana confeccionada apenas com retalhos que significa encontro precioso (Abay = encontro e Omi= Precioso). As visitas às casas dos entrevistados serão feitas com uma boneca Abayomi tamanho humano, que percorrerá junto com os artistas as casas dos moradores, recolhendo afetos, impressões e objetos afetivos e que tragam a memória dos moradores. Durante as visitas serão recolhidos 3 materiais pilares para a construção do memorial: A imagem de um rosto (rostidades), a voz (testemunho do morador) e um objeto ( algo material). Esses materiais serão organizados em ações que construam uma memória afetiva dos moradores atuais do bairro e suas impressões sobre o que a Luz representa hoje e o que representou no passado de cada um. Para a proposta cartografia, tanto no que se refere à coleta de dados quanto à construção de ações bem como o próprio mapa, o agrupamento Andar7 utilizará técnicas e linguagens tais como: performance, fotografia, instalação e vídeo mapping.

2. Coletivo Zona de Compensação

 

Ruas selecionadas: Aurora, Vitória, Santa Ifigênia e General Osório

1° Movimento: preparação – (de 23/11 a 25/11)

 

Elaborar um roteiro de perguntas para orientar o primeiro encontro com moradores e trabalhadores a partir do mote: quem são os moradores/trabalhadores do bairro da Luz?;

 

Elaborar uma carta/poema, um presente: a partir de trechos do texto do musical Luz Negra;

A ideia é abordar os moradores e trabalhadores das referidas ruas de forma sutil e gradativa.

2° Movimento: Paredes invisíveis – (de 26/11 a 10/12)

 

Bater de porta em porta, oferecer um presente, uma carta/poema, conversar.

 

A carta/poema estimulará a conversa sobre o bairro, sobre quem é esse morador ou trabalhador da região, abrindo espaço para assistirem ao espetáculo Luz Negras.

 

3° Movimento: piquenique – (de 11/12 a 18/12)

Realizar um breve piquenique poético dentro da casa de alguns moradores do bairro;

Após a primeira abordagem, selecionaremos alguns moradores abordados para a realização do piquenique poético. Os integrantes do coletivo vão levar tolha, café e bolo para dentro da casa de alguns moradores.

A primeira ação é abrir a toalha com algumas fotos do espetáculo “Luz Negra”. Se a pessoa já assistiu ao espetáculo, a discussão tomará outros rumos. O que de fato importa é o processo de formação de público e a construção (ou confirmação) de pertencimento a uma localidade.

 

4° Movimento: planta baixa – (de 19/12 a 23/12)

A cartografia gerou um mapeamento de cada morador de porta. Não houve como entrar nos prédios residenciais. Não se trabalhou também com os endereços comerciais. O foco era trabalhar coma populaão moradora e invisibilizada da região.

 

A cartogria, além de ter gerado todos os conteúdos sobre essa população, gerou:

1. O número um do Zine Boca, dedicado a Cartografia

2. Reforma do largo Genia com a Secretaria de Urbanismo e Direitos Humanos e o entorno.

3. Definiu todo o atual percurso da Cia nos últimos 5 anos, com olhar para a população local contemporânea

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