Cia. Pessoal do Faroeste traça ‘cartografia afetiva do quadrilátero do pecado’

Projeto marca as comemorações dos 18 anos de existência do Pessoal do Faroeste

O resultado de cada cartógrafo será registrado em livro.

No dia do aniversário de São Paulo, 25 de janeiro, a SPURBANISMO entrega o Largo General Osório reformado e com estrutura pra receber intervenções multimídia e cinema, além de outras linguagens artísticas.
 

Além de retomar a temporada do musical Luz Negra, a Cia Pessoal do Faroeste, em parceria com cinco coletivos do Ateliê Amarelinho, pretende fazer um mapeamento cartográfico afetivo de todos os moradores do entorno da sede da companhia, conhecido como “quadrilátero do pecado”, entre as avenidas Mauá, Ipiranga, São João e Duque de Caxias: A Boca do Lixo.

 

Este projeto que marca os 18 anos de vida da Cia Pessoal do Faroeste pretende identificar quem são os moradores da região, e se nele ainda moram técnicos e artistas do cinema que começaram a ocupá-la a partir da década de 1950.

“Pensamos em dar uma devolutiva à cidade através desta cartografia afetiva da região. É um momento de reflexão da Cia depois de um grande mergulho de 15 anos em duas Trilogias. Um momento para se pensar, trocar, conversar com o entorno para entender o que ele tem a sugerir, a provocar sobre um novo olhar, uma nova poética, uma nova dramaturgia. Olhar para trás, aguçar a escuta do agora e pensar o futuro”, diz Paulo Faria, diretor da companhia. No período entre novembro de 2015 e janeiro de 2016 cinco coletivos vão percorrer quatro ruas e cada um deles será responsável por uma intervenção/performance para as abordagens e mapeamento. Dois deles, o Agrupamento Andar7 e o Zona de Compensação já estão em atividade e os outros três entram no projeto a partir de janeiro de 2016.

O Pessoal do Faroeste além de possuir a sua Sede na Rua do Triunfo, possui ao lado, na esquina da Rua General Osório, o Ateliê Amarelinho, local onde abrigou o ateliê da artista Maria Bonomi, um projeto de ocupação artística, com dez coletivos, em diálogo permanente com o entorno.

Este é o primeiro projeto em parceria, após quase dois anos formando coletivamente uma identidade.

 

Levantamento para a criação

O morador ou trabalhador do entorno será convidado de porta em porta para assistir à peça Luz Negra. Num ambiente de estudo, reflexão, trocas, formação de plateia e discussão de políticas públicas. Todas as atividades acontecem na Sede Luz do Faroeste, na Rua do Triunfo.

 

Cadeira na porta - memória

Ô de casa! Dê licença! Através de uma visita para convidar o vizinho a assistir ao musical “Luz Negra” se estabelecerá o primeiro contato. Antes, no primeiro mês do cronograma, em uma imersão, serão levantadas todas as perguntas para a construção da cartografia e o roteiro dos pontos onde atuarão os cartógrafos pra que possam registrar da melhor forma a memória e cultura do vizinho. No primeiro encontro entre o cartógrafo e o vizinho também se marcará o dia em que o vizinho irá assistir à peça, para que o seu cartógrafo possa encontrá-lo no seu endereço e levá-lo até o teatro num passeio de reconhecimento da sua casa até o teatro. E ao final da peça continuará a prosa iniciada no primeiro encontro, com as devolutivas do nosso vizinho sobre o espetáculo – por vezes esse encontro acontecerá num debate com o público. Todo encontro resultará num relato por parte do artista que convida, e integrará o Livro a ser produzido. Durante esse mesmo período, a cada mês, haverá uma palestra sobre o universo do estudo do negro, do cinema e da região. A programação do cine clube também refletirá todas as questões que permearão a cartografia. Toda essa parte será programada no primeiro mês de imersão.

Pontos a serem levantados:

1. Identidade e história da região: a região compreendida como Luz tem uma história rica e diversa, permeada por momentos mais oficiais e mais obscuros, por doses maiores ou menores de atenção do governo e da opinião pública.


2- Memória (documentação e registro): criar um território de reflexão teórico e prático acerca da memória do bairro da Luz e seus moradores, sobretudo dos moradores, utilizar da memória para tentar a partir dessa “geografia humana, uma cartografia afetiva”, traçar um estudo sobre o local, sua história e suas transformações no presente.
 

3- Políticas públicas: discutir políticas públicas destinadas às artes, bem como a sua real efetivação e legados para a cidade quando bem elaborada e realizada. Nesse sentido, a ideia é discutir desde possíveis propostas de políticas públicas até exemplos de políticas que deram certas enquanto fomentadora de uma nova produção que não se pauta mais pelo viés do mercado.


4- Direito à cidade: por meio de tema proposto, criar um lugar de reflexão que possibilite a abertura do pensamento e da ação na direção de possibilidades que mostrem novos horizontes e caminhos para sociedade urbana e a realidade que nasce a nossa volta.
 

5- Periferia central ou centro periférico: diferentemente de outras regiões centrais da cidade, os bairros da Luz e Santa Ifigênia têm uma dupla face: ora são enxergados como centro, ora como periferia, numa mescla de referências geográficas e simbólicas.
 

6- Gestão colaborativa horizontal: estratégias e ferramentas de gestão que se apoiam no formato colaborativo onde escolhas e tomadas de decisão são feitas de forma horizontal e democrática.
 

7- Cidadania, arte, cidade: a proposta aqui é discutir a relação entre ambas, e o que esta relação implica na construção ou transformação do tecido social, bem como na circulação e produção de bens simbólicos.

 

8- “Cracolândia”: Nas últimas décadas, a região da Luz e cercanias tem aparecido na imprensa por conta de questões relacionadas à violência, mas algumas ambiguidades teimam em surgir.


9- Migração: poucas regiões em São Paulo exibem de modo tão exuberante a influência de múltiplas correntes migratórias como o bairro do Bom Retiro e seus arredores. Judeus, coreanos, gregos, nigerianos, haitianos, árabes, bolivianos, entre outras – povos que redefinem, com sua cultura e crenças, o espaço ao qual aportam ao mesmo tempo em que sofrem processos de transformação em suas próprias culturas.


10 – No mês de dezembro o Amarelinho receberá um coletivo que está sendo criado por advogados militantes em direitos humanos para ajudar a alinhar as ações, esse novo grupo ajudará a criar um conselho consultivo pro Amarelinho.

 

No período entre novembro de 2015 e janeiro de 2016 cinco coletivos vão percorrer cada um 4 ruas e cada um deles será responsável por uma intervenção/performance para as abordagens.

 

Marco Zero

Dia 26.11.2015


Saída dos dois primeiros coletivos que farão a cartografia nos meses de novembro e dezembro

(no fim de janeiro os três coletivos que restam, terminam na diagonal oposta no mapa, na esquina da São João com a Ipiranga).


Saída Sede Luz do Faroeste, esquina da Rua do Triunfo com a General Osório

Coletivos/Movimentos/Cronograma 2015

1. Agrupamento Andar7

 

Ruas selecionadas: Rua do Triunfo, Rua General Couto Magalhães, Rua dos Protestantes e Rua dos Timbiras

Cartografia para um memorial do afeto. Como proposta de cartografia e mapeamento o Agrupamento Andar7 pretende realizar ações que aproximem os moradores e entrelacem suas memórias através da construção de um memorial/instalação, o ponto de partida é o trabalho já iniciado com o projeto as #asclaudias, no qual foram ministradas oficinas voltadas a mulheres no bairro da Luz, utilizando a mitologia da boneca Abayomi, boneca negra de origem africana confeccionada apenas com retalhos que significa encontro precioso (Abay = encontro e Omi= Precioso). As visitas às casas dos entrevistados serão feitas com uma boneca Abayomi tamanho humano, que percorrerá junto com os artistas as casas dos moradores, recolhendo afetos, impressões e objetos afetivos e que tragam a memória dos moradores. Durante as visitas serão recolhidos 3 materiais pilares para a construção do memorial: A imagem de um rosto (rostidades), a voz (testemunho do morador) e um objeto ( algo material). Esses materiais serão organizados em ações que construam uma memória afetiva dos moradores atuais do bairro e suas impressões sobre o que a Luz representa hoje e o que representou no passado de cada um. Para a proposta cartografia, tanto no que se refere à coleta de dados quanto à construção de ações bem como o próprio mapa, o agrupamento Andar7 utilizará técnicas e linguagens tais como: performance, fotografia, instalação e vídeo mapping.

2. Coletivo Zona de Compensação

 

Ruas selecionadas: Aurora, Vitória, Santa Ifigênia e General Osório

1° Movimento: preparação – (de 23/11 a 25/11)

 

Elaborar um roteiro de perguntas para orientar o primeiro encontro com moradores e trabalhadores a partir do mote: quem são os moradores/trabalhadores do bairro da Luz?;

 

Elaborar uma carta/poema, um presente: a partir de trechos do texto do musical Luz Negra;

A ideia é abordar os moradores e trabalhadores das referidas ruas de forma sutil e gradativa.

2° Movimento: Paredes invisíveis – (de 26/11 a 10/12)

 

Bater de porta em porta, oferecer um presente, uma carta/poema, conversar.

 

A carta/poema estimulará a conversa sobre o bairro, sobre quem é esse morador ou trabalhador da região, abrindo espaço para assistirem ao espetáculo Luz Negras.

 

3° Movimento: piquenique – (de 11/12 a 18/12)

Realizar um breve piquenique poético dentro da casa de alguns moradores do bairro;

Após a primeira abordagem, selecionaremos alguns moradores abordados para a realização do piquenique poético. Os integrantes do coletivo vão levar tolha, café e bolo para dentro da casa de alguns moradores.

A primeira ação é abrir a toalha com algumas fotos do espetáculo “Luz Negra”. Se a pessoa já assistiu ao espetáculo, a discussão tomará outros rumos. O que de fato importa é o processo de formação de público e a construção (ou confirmação) de pertencimento a uma localidade.

 

4° Movimento: planta baixa – (de 19/12 a 23/12)

Construir a planta baixa das casas de cada morador na rua, com fita crepe, giz e tinta;

Para o fechamento desta cartografia afetiva, aqueles moradores que receberam o piquenique poético serão convidados a realizar a planta baixa de suas casas na rua. Nesta ação a rádio itinerante Volúsia fará a transmissão ao vivo pela internet.

 

Há cinco anos o Pessoal do Faroeste desenvolve a sua Trilogia Boca do Lixo, que conta a história da Rua do Triunfo através dos espetáculos “Cine Camaleão, A Boca do Lixo” – sobre a pornochanchada 1978, “Homem Não Entra” – sobre a prostituição na região 1953 e as produtoras nacionais, “Luz Negra” – sobre a Frente Negra e as distribuidoras americanas de cinema 1937. Em profundo diálogo estético e político com o cinema, ao longo desse período criaram-se muitas ações para trazer de volta os artistas do cinema da Boca. Seja em palestras (Bate Boca), espetáculos teatrais, cine clube ou mesmo a criação de filmes.

Ao longo de cinco anos já são cinco documentários, viabilizados pela Lei do Fomento. Criou-se o movimento “Triunfo a volta”, que contou com apoio internacional do cineasta Pedro Almodóvar e mais 500 artistas e produtores do Brasil. Este movimento sensibilizou a Secretaria de Cultura que viabilizará a vinda da SPCINE pra Rua num futuro breve. E no dia do aniversário de São Paulo, 25 de jan de 2026, a SPURBANISMO entrega o Largo General Osório reformado e com estrutura pra receber intervenções multimídia e cinema, além de outras linguagens.
 

Acesso

O público sempre compareceu lotando todas as ações e programações que envolveram a construção da Trilogia. Há cinco anos a Cia introduziu o envelope na entrada do público para que ele deposite ali a sua contribuição voluntária ao final, que ele diga quanto valeu e quanto ele pode pagar. Quem tem paga por quem não tem. Isso democratizou o acesso e levou o público a pensar após a função o quanto ela vale. Porém menos de 2% é público do entorno. Foram muitas tentativas de aproximação, sempre divulgando tais ações, e sem poder construí-la junto com o entorno. O fato de sempre a Cia estar voltada para história, não se conseguia olhar profundamente o entorno hoje, o bairro da Santa Efigênia, na divisa com a Luz, Bom retiro e Campos Elíseos, o quadrilátero pecado, ou a Boca Lixo hoje. Houve uma experiência criada em curadoria compartilha entre a Cia e o SESC Bom Retiro, O Ciclo de Olhares Luz e Sombra, no ano de 2013, mais um grande passo da Cia Pessoal do Faroeste em direção à interação afetiva com a população desta região da cidade. Durante 7 meses, a partir de cartas afetivas da população a Cia desenvolveu palestras, oficinas e performances criando um ambiente de debate e expressão acerca do espaço público urbano, interligada com a cidade através de uma plataforma digital resultando na maior projeção de Vídeo Mapping da América Latina na fachada da Estação Pinacoteca e uma centena de atores/cidadãos em cena. Esta experiência provocou na Cia o desejo de continuar a investigação das relações afetivas da população com seu espaço urbano, porém com um novo recorte geográfico: o “Quadrilátero do Pecado”. E agora não mais com toda a cidade, mas com o próprio habitante do lugar. A Cia, então, decidiu colocar o interesse pelo público da região, foco central de um projeto, aliado a um momento também para refletir, filosofar, pensar, trocar, discutir políticas públicas junto com o entorno e a partir de todos os lugares em que o Pessoal do Faroeste esteve para chegar em 2016, aos 18 anos.

Perfil da Região

A região foi a primeira a construir apartamentos de quarto e sala a partir dos anos 1950, a fim de atrair para o local um novo perfil de morador, como os técnicos, artistas e produtores de cinema. Porém, alguns anos depois, esse projeto foi interrompido pela ocupação das prostitutas quando, a partir de 1954, foram expulsas da zona de confinamento do Bom Retiro. Na década seguinte voltou-se a construir apartamentos de dois quartos para trazer famílias de baixa renda para a região. As Ruas Aurora, Vitória, Triunfo vem das guerras que São Paulo ajudou a vencer, e esteve à frente o General Osório (que dá nome ao Largo) em que negros estiveram no front de guerra, na ponta de lança. Os que sobreviveram ganharam os terrenos como recompensa pelas vitórias. Os negros antes estavam no entorno da Igreja Do Rosário, onde hoje está o Banespão, no início da Avenida São João.

Os negros foram retirados dali no projeto de gentrificação que só se aprofundou na cidade. A igreja foi para Largo do Paissandu e seus moradores obrigados a ocupar a periferia da cidade, uma região que também coincide com a histórica ocupação dos pretos da Glette. Até o cinema se instalar esta foi uma área de exclusão, ocupada sem visibilidade, sem participação, sem cidadania.

Será que conseguimos imaginar quem é o morador de hoje da Boca do Lixo?

Atualmente quando a cidade discute, teme, ou quer acabar com a “cracolândia”, será que participam seus moradores? A Cia também desenvolve projeto junto aos usuários de crack em parceria com o projeto Braços Abertos. E presenciou o conflito entre o morador invisível e a “cracolândia”. Historicamente o morador da região permaneceu na faixa de baixa renda, muito por ser em maioria negra, numa fotografia nítida de uma área de exclusão. Uma região de pobres não precisa ser vista, uma região de pobres e negros não precisa ser vista, uma região de pobres, negros e usuários de drogas não precisa ser vista. E logo a mídia e o governo do estado criaram publicamente, há 20 anos, o nome “cracolândia”. Era o que bastava para não haver nenhum sentimento de pertencimento, como deixa para a criação na calada da noite do projeto “Nova Luz”, que traria a solução: gentrificação. E voltaríamos ao inicio do século 20 quando a eugenia foi a mentalidade mais presente na administração pública. E recentemente se começou a derrubar prédios e prédios pra erguer um centro empresarial e cultural. E mais uma vez não se levou em conta a opinião do morador do entorno, que em parte foi removido daqui pra uma periferia mais longe. Os moradores desse bairro que tem em seu nome uma santa negra e protetora da casa própria, a Santa Efigênia, só conseguiram forças para combater o monstruoso empreendimento quando tiveram o apoio e participação dos empresários. Morador invisível não tem voz nem vez. Essa ação contra o Nova Luz conseguiu que a atual gestão da prefeitura arquivasse o projeto pra ser discutido com os moradores. Só na Rua do Triunfo seria a metade dos prédios demolidos por terem sido construídos a menos de 70 anos. Estamos falando de prédios que sediaram toda a história do cinema, e que felizmente foram preservados. Hoje há um processo de tombamento de quase mil prédios no bairro. Mas quem é esse morador dessa cidade invisível? Será ainda negro? Será que ainda existem remanescentes do cinema? Ainda é a maior área de moradia de prostitutas? E quem é e como vive o mais recente morador? Nigerianos, bolivianos, haitianos... Conhecem o quadrilátero do pecado?

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