Texto sobre Brancos e Malvados

Texto de Alexandre Mate para a peça em cartaz Brancos e Malvados (de abril a agosto), e que faz parte do livro que o pesquisador teatral está escrevendo sobre os 21 anos do Pessoal do Faroeste

…sobre Brancos e Malvados… 
Seguramente, e sobretudo em razão de a dramaturgia de texto ter passado por infindas mudanças, e das mais diversas naturezas, trata-se da mais complexa obra escrita por Paulo Faria. O grau de complexidade da obra, que se aloja na montagem, encontra-se tanto do ponto de vista do assunto como no referente à estrutura, que articula intenso jogo de teatralidade entre as duas personagens Heitor (reacionário e desconhecedor total da História, do País e de si) e Cícero (dramaturgo e ator) e Prático (que dirigiria a obra). Heitor e Cícero, além de personagens individuais formam, também, um coro e, dele se destacam na condição de corifeus. Construída a partir de proposição explicitamente palimpsesta, com inúmeras camadas de significação, a obra revisita e faz alusão a montagens da Faroeste; a momentos da ditadura civil-militar brasileira e tentativa de ressurgimento em 2019; indica aspectos da mitologia (distante) com relação aos Três Porquinhos; apresenta, na condição de bode expiatório, certo homem branco, colonizador, predador, perverso… Trata-se, portanto, de um trabalho desenvolvido com a justa/sobreposição de diversos expedientes metalinguísticos, “distribuídos”, como já apontado, em diversas camadas simbólica.


A dupla de intérpretes acumula as funções da encenação: vive as personagens e narra os acontecimentos da trama. Entretanto, mais do que “apenas” narrar (o que não seria pouca coisa), a dupla canta, dança e promove toda a contrarregragem da obra apresentada: teatro e cinema (ou alguma manifestação ligada à cinematografia)… Portanto, mais do que rapsodos, os dois atores, conscientes de seu papel como personagem, narradores e organizadores da cena, em obra de teatralidade ao paroxismo, pouco a pouco passam e assumem a condição de mestres de cerimônia do espetáculo, de si mesmos e da obra cinematográfica, em processo de construção…


Tal proposição estética, enquanto ideia e concretização, constitui-se sofisticada e o resultado é bastante interessante. De certa forma, e por lidarmos aqui com arte, é possível aproximar a obra, enquanto literatura encenada, dos pressupostos das manifestações literárias ditas poliédricas. A narrativa, em tese, enquanto exercício cênico, pode ser apresentada por meio de diferentes combinações e sequências de seus episódios.


Inserida na narrativa – além das imagens em HQ que fazem/trazem algumas alusões aos universos temáticos (ditadura, violência, gênese de criação e de expulsão de uma alegorizada grande mãe, teatralidade da linguagem e de algumas obras anteriores da Companhia) – as letras das composições musicais, em grande momento de criação poética e elocutória, criam mais uma preciosa camada simbólica à obra. O diretor musical do espetáculo, o multi-instrumentista Felipe Chacon, afirma que sua criação busca trabalhar a partir de uma proposta de hibridização intencional de, na ausência de termo mais apropriado, “melodização”. Em tese, a elocução busca o trabalho sonoro-poético de aproximar o significante do significado. Para que isso ocorra, e adotando algumas das proposições sobretudo dos concretistas, as imagens buscam tirar “proveito” ao paroxismo de sua poeticidade visual. Chacon afirma que seu processo de criação e de elocução (porque só existe, concretamente, ao ser pronunciado) pode ser categorizado como verbovocovisual. Para demonstrar o resultado, vale apresentar um excerto da canção Eco do Ego, em cujos versos iniciais aparece:


Eu
Eu sou
Eu sou mais
Eu sou mais eu
Eu sou o sol
Meu pai que deu
E agora é meu
Tudo meu
Meu


Em seu fluxo cênico-narrativo, Brancos e Malvados apresenta-se quase em relação frontal (encenação corredor), na medida em que as duas laterais têm espelhos de média dimensão, de onde – algumas vezes – se pode avistar fragmentos do espetáculo e do espaço representacional. Nesse jogo, de modo refletido, o espectador passa, na condição de reflexo, a constituir, explicitamente, a obra. De outro modo, pode-se afirmar que, em sua andança espetacular tendo em vista a complexidade de sua composição, em determinados momentos, é preciso deixar o fluxo seguir para “recuperar” ou repropor alguma nova ordenação simbólica. Algo no assunto, nas imagens, no telão, na trilha ganha algum destaque que remete ao que já passou… Isso, entretanto, não prejudica a apreensão da obra, ao contrário, nas contracenas as metáforas podem ganhar novos sentidos. Metaforizando, a apreensão pode ocorrer (mesmo que não para todos) aos borbotões… Se, no começo, a obra é apreciada, seguindo a tradição naturalista, aos golinhos, a partir de certo momento, ela ocorre por meio de grandes goles… alguns, até, eletrizantes.


À luz das últimas ponderações aqui apresentadas, e como é bastante comum nas obras experimentais, Brancos e Malvados, por certo “nervosismo enervante”, que o tornou vencedor das tantas dificuldades de realização, caracteriza-se em obra portadora de alguma (boa e excelente) síndrome, que quebra uma tradição e “obriga” os sujeitos, no processo de recepção, a transitar a partir de novas chaves interpretativas. Espécie de espetáculo-viagem, a obra não pede nenhum passaporte como exigência, mas o se deixar envolver, sem apriorismos naturalizantes e ilusionistas. Metaforicamente, pode-se até não se sair do lugar ao assistir a obra, por assim se manifestar, a “locomocionalidade” não é tranquila. Nesse particular, sobretudo o público da Faroeste poderá surpreender-se com o novo resultado… fruto, é preciso não esquecer, de vários abandonos e retomadas em percurso processual. Parafraseando o poeta Pessoa-português, com Brancos e Malvados, de modo mais e menos intenso, pode-se deparar com algo assemelhado ao encontrar-se quando se está em estado/processo de fuga.

Veja fotos de ‘Brancos e malvados ou ensaio dos três porquinhos’

Post criado 15

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo